É curioso como diversas vezes perante algo novo, a primeira reação é de pura estranheza, para numa fase posterior passarmos a adorar completamente essa mesma coisa.
No caso a que me refiro aqui, o algo é música. Não sei como é com os outros, mas já me sucedeu por diversas vezes que no primeiro contacto que tenho com determinada música, acho aquilo... estranho, não consigo dizer que gosto, mas também que não gosto (se bem que em algumas ocasiões cheguei ao ponto de quase arrepender-me da aquisição de determinada obra), para após algumas audições passar a não conseguir parar de ouvir, ao ponto de ter de adquirir o máximo que consiga da discografia.
Aconteceu-me com Leonard Cohen, Tom Waits, Mafalda Arnauth, Laïs, Jewel, Blondie, João Gilberto, Sérgio Godinho, e uns tantos outros...
Mais curioso é sentir essa mesma estranheza relativamente a um artista (no caso em questão banda) que já se conhecia e que por sinal tinha transitado precisamente por tal processo de estranheza inicial quando se ouviu a primeira vez. Não estou a dizer que não vejo diferenças nos diversos albuns de determinado artista (ou banda), claro que sim que as há e é bom que assim seja, senão para quê fazer mais albuns... Mas tratando-se de um daqueles casos de adoração quase patogénica pela música de uma determinada banda, ao ouvir o novo album dessa banda pela primeira vez e parecer que não se está a reconhecer aquilo de parte alguma, é algo um tanto inesperado, pelo menos... mas eis que, algumas audições depois já não consigo perceber porquê tanta estranheza na primeira audição, pois afinal agora parece-me um som perfeitamente enquadrado com a banda, com algumas diferenças é certo, mas que também já faz parte dos meus vícios musicais...
A banda em questão: Within Temptation
O album novo: The Heart Of Everything
PS - O concerto do passado dia 24/03/2007 no Paradise Garage em Lisboa, foi um espectáculo
Wednesday, March 28, 2007
Saturday, March 24, 2007
Nevoeiros do Sobrenaturalismo
Na falta de tempo, inspiração e sei lá que mais para escrever algo, deixo uma recomendação de leitura:
Nevoeiros do Sobrenaturalismo
Nevoeiros do Sobrenaturalismo
Sunday, March 11, 2007
Saturday, March 10, 2007
Saturday, March 3, 2007
Declaração de Bruxelas
Trata-se de um texto que, redigido em termos muito abrangentes, visa congregar esforços dos cidadãos europeus no sentido da afirmação e da defesa dos valores seculares/laicos da Europa, designadamente no âmbito de uma (previsívelmente) próxima iniciativa de retoma do projecto de dotar a União Europeia com uma Constituição Política.
O texto está aqui: https://www.iheu.org/v4e/html/portuguese.html
O texto está aqui: https://www.iheu.org/v4e/html/portuguese.html
Monday, February 26, 2007
Solidão
"A pior solidão que existe é darmo-nos conta de que as pessoas são idiotas."
Gonzalo Torrente Ballester
Gonzalo Torrente Ballester
Sunday, February 25, 2007
O fim último da vida
Autor do texto - João Pereira Coutinho, jornalista
Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não.A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe:jardim-escola aos três, natação aos quatro,lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente mas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho,o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho,os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne,saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!
Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não.A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe:jardim-escola aos três, natação aos quatro,lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente mas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho,o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho,os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne,saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!
Thursday, February 22, 2007
Nunca mais te hás-de calar
Faz amanhã 20 anos que morreu Zeca Afonso, mas como escreveu José Mário Branco:
Nunca mais te hás-de calar, Ó Zeca para nós...
Zeca
por José Mário Branco
Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais ás vezes uma só canção
Do que muita panfletada
Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber
Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz
Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado
Na distracção jogas á defesa
Com humor disfarças a tristesa
Cantas a esp'rança e o amor
Que o povo te ensinou, de cor
Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho
Co'a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer
Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz
Vieste de menino de oiro pela mão...
Nunca mais te hás-de calar, Ó Zeca para nós...
---------------------------------------------
Zeca
por José Mário Branco
Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais ás vezes uma só canção
Do que muita panfletada
Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber
Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz
Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado
Na distracção jogas á defesa
Com humor disfarças a tristesa
Cantas a esp'rança e o amor
Que o povo te ensinou, de cor
Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho
Co'a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer
Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz
Vieste de menino de oiro pela mão...
Friday, February 16, 2007
Vantagem da inteligênica
"Nos tempos em que a inteligência era uma vantagem, os nossos antepassados eram, em média, mais inteligentes que outros das suas gerações."*
Sei bem que isto está fora do contexto, mas por isso mesmo acho piada a esta frase quando se pensa em quem conduz os nossos destinos hoje em dia, seja ao nível governativo seja relativamente à hierarquia numa grande empresa.
* - Isto é apenas uma frase da terceira parte de um artigo sobre a teoria da evolução das espécies de Darwin (podeís encontrar as duas primeiras aqui: parte 1, parte 2)
Sei bem que isto está fora do contexto, mas por isso mesmo acho piada a esta frase quando se pensa em quem conduz os nossos destinos hoje em dia, seja ao nível governativo seja relativamente à hierarquia numa grande empresa.
* - Isto é apenas uma frase da terceira parte de um artigo sobre a teoria da evolução das espécies de Darwin (podeís encontrar as duas primeiras aqui: parte 1, parte 2)
Tuesday, February 13, 2007
Saturday, February 10, 2007
Cantar Alentejano
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
Tuesday, February 6, 2007
Inspiração do génio (4)
Se os mais distintos físicos e matematicos acreditam no génio como mágico é, em parte, para sua protecção psicológica. Um cientista apenas excelente poderia sofrer um choque desagradavel se discutisse s seu trabalho com Feynman. Aconteceu vezes sem conta: os físicos esperavam por uma oportunidade para terem a opinião de Feynman acerca do resultado de um trabalho no qual tinham empenhado semanas ou meses da sua carreira. Como era típico de Feynman, este recusar-se-ia a deixá-los dar uma completa explicação desse trabalho. Dizia que era menos divertido para ele. Permitia-lhes apenas que apresentassem as linhas gerais do problema, antes de interromper e dizer oh, eu sei... e rabiscar no quadro, não o resultado, A, do problema apresentado pelo visitante, mas sim um teorema mais difícil, mais geral, X. Assim, A (prestes a ser enviado, talvez, para a Physical Review) não passava de um caso particular. Isto podia magoar. Por vezes, não era claro se as repostas iluminadas de Feynman resultavam de um cálculo instantâneo ou de um conhecimento previamente armazenado e trabalhado - e não publicado. 0 astrofísico Willy Fowler propôs, num seminário no Caltech, nos anos 60, que os quasares - misteriosas fontes de radiação brilhantes, recentemente descobertas no céu - eram estrelas com uma enorme massa, tendo-se Feynman levantado de imediato para dizerr, surpreendendo toda a gente, que tais objectos seriam gravitacionalmente instáveis. Mais, afirmou que a instabilidade era um resultado da relatividade geral. Esta afirmação exigia um cálculo dos subtis efeitos de equilibrio entre as forças estelares e a gravidade relativista. Fowler pensou que Feynman estava a falar sem conhecimento de causa. Mais tarde um colega descobriu que Feynman havia efectuado um trabalho de uma centena de páginas sobre o assunto alguns anos antes. 0 astrónomo de Chicago Subrahmanyan Chandrasekhar, trabalhando independentemente, chegou ao mesmo resultado de Feynman - e isso constitiu parte do trabalho que lhe valeu o prémio Nobel vinte anos depois.
O próprio Feynman nunca se preocupou em publica-lo. Alguém com uma ideia nova arriscava~se sempre a descobrir, como dizia um colega, "que Feynman tinha passado por ela e partido em busca de outra».
Um grande físico que acumulava saber sem se dar ao trabalho de o publicar podia ser um autêntico perigo para os seus colegas. Na melhor das hipóteses, era desanimador saber que uma descoberta susceptível de promover a carreira de uma pessoa estava, para Feynman, abaixo do limiar da publicabilidade.
in "Feynman - A Natureza do Génio" de James Gleick
O próprio Feynman nunca se preocupou em publica-lo. Alguém com uma ideia nova arriscava~se sempre a descobrir, como dizia um colega, "que Feynman tinha passado por ela e partido em busca de outra».
Um grande físico que acumulava saber sem se dar ao trabalho de o publicar podia ser um autêntico perigo para os seus colegas. Na melhor das hipóteses, era desanimador saber que uma descoberta susceptível de promover a carreira de uma pessoa estava, para Feynman, abaixo do limiar da publicabilidade.
in "Feynman - A Natureza do Génio" de James Gleick
Inspiração do génio (3)
Como disse Mark Kac: «[...] o funcionamento das suas mentes é, para todos os efeitos, incompreensível. Mesmo depois de termos compreendido o que fizeram, o processo pelo qual o fizeram , continua mergulhado na mais completa escuridão.»
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